5.4.20. O que fazer se a raiva for reintroduzida numa região depois de um período de ausência?

O principal objetivo em qualquer surto de doença é controlar a propagação da doença. A raiva pode disseminar-se muito rapidamente através da mordedura dos cães e contaminará inevitavelmente a população humana. Se a raiva for reintroduzida numa zona indene de raiva, as estratégias de controle da raiva devem visar a erradicação da doença e o restabelecimento do estado anterior.

Em caso de suspeita da introdução da raiva (quer através da comunidade, quer dos agentes veterinários ou médicos), os Serviços Veterinários e os departamentos de zoonoses ou o Ministério da Saúde devem ser notificados imediatamente, para investigação e confirmação laboratorial. Se o surto for confirmado, deve ser lançada imediatamente uma resposta operacional. As estratégias de controle seleccionadas devem: (1) proteger a saúde pública e animal; (2) minimizar os problemas de bem-estar animal; (3) perturbar o mínimo possível as comunidades locais, a indústria do turismo e os visitantes; (4) reduzir o ônus para o setor público; (5) evitar os danos para o ambiente.

A presente seção fornece orientações sobre os aspectos essenciais de uma resposta operacional eficaz (ver índice).

Para obter uma versão PDF da presente seção, clicar aqui.

Participação de todos os organismos competentes


A gestão, o controle e a erradicação de um surto de raiva exigem uma resposta pronta e coordenada por parte de vários organismos. Devem participar os seguintes organismos:

- Os Ministérios em especial os Ministérios da Agricultura e da Saúde, mas também o da Defesa, do Ambiente e/ou do Turismo e o da Educação, incumbidos de formular ou rever as estratégias de controle em conformidade com as obrigações jurídicas nacionais e internacionais e de assegurar a participação adequada de todos os serviços interessados no âmbito do governo. Pode ser criado um centro nacional de controle da doença para assegurar a tradução dos pareceres estratégicos em orientações práticas para aqueles que controlam a doença sob o ponto de vista operacional e assegurar também a coordenação global.

- Os parceiros operacionais locais locais (autoridades locais, forças policiais, veterinários e médicos) que terão um papel essencial na aplicação e execução de estratégias de controle da doença, incluindo a provisão de recursos de emergência (veículos, equipamento, edifícios), pessoal e aconselhamento local. Sob o ponto de vista operacional, pode ser criado um centro local de controle da doença para ajudar a coordenar e a executar as operações de controle da doença.

- As organizações de proteçãolocais e internacionais, às quais caberá prestar informações em matéria de bem-estar animal, como os métodos de abate eventualmente necessários para controlar a doença (descritos aqui ) e providenciar formação aos agentes locais sobre o contato com cães particularmente difíceis de serem manipulados.

- As organizações internacionais (OMS [1], OIE [2], FAO [3] e a Comissão da UE [4] ) com representação no país. É particularmente importante permitir que peritos reconhecidos no domínio do controle da raiva possam ajudar na revisão de estratégias de gestão do surto.

- Os meios de comunicação social (rádios, televisão e jornais, nacionais e locais) para divulgar informações sobre a situação do surto, bem como os objetivos, os meios e os progressos da resposta operacional durante todo o período de duração. Todas as informações divulgadas devem ser validadas pelos veterinários e pelos serviços de saúde pública.
Pode encontrar aqui mais informações sobres estes organismos e respectivas responsabilidades.

Recursos

Para assegurar a gestão do surto, são necessários recursos financeiros adequados. Pode ser determinado um orçamento indicativo com base num conjunto de estimativas já existentes: clicar aqui para obter informações adicionais sobre os custos da vacinação dos cães, estimativas rápidas da dimensão da população canina, e os custos do tratamento humano pós-exposição. A criação de um grupo de missão (Task Force), constituído por representantes dos ministérios competentes, pode ser uma oportunidade para uma rápida mobilização de fundos. Para obter informações sobre fontes de financiamento que podem estar disponíveis e sobre outros recursos necessários para organizar programas de controle da raiva, clicar nas hiperligações.

Identificação e reunião do pessoal

Os recursos humanos devem ter formação adequada, como o pessoal veterinário e médico e os técnicos de laboratório, para assegurar a execução imediata das operações de investigação do surto e das medidas de controle. Clicar na hiperligação, para ver o pessoal que pode ser disponibilizado para operações de controle da raiva canina e, em especial, o pessoal para a vacinação canina. Se não for possível gerir o surto com os recursos humanos existentes, deverá ser criada uma equipa de urgência (incluindo voluntários) com as competências necessárias ou à qual foi providenciada formação adequada. A formação do pessoal que opera a campo, sobre os procedimentos para captura e manipulação segura de cães, vacinação, embalagem e envio das amostras para o laboratório, deve ser organizada pelas autoridades veterinárias e considerada como uma questão prioritária.

Vigilância

Caso não se encontrem em vigor medidas de vigilância pertinentes, estas devem ser aplicadas de imediato. As medidas deverão incluir:

- O rastreamento da origem da infecção e quando e como a doença foi introduzida numa região.

- O rastreamento das mordeduras dos cães incluindo a investigação da origem das possíveis exposições à doença (os animais que morderam) e a identificação e o controle das pessoas e dos animais expostos. Este procedimento é importante para conter a propagação da doença e assegurar o tratamento adequado dos casos de exposição humana. Se os animais suspeitos (cães não vacinados que morderam alguém) puderem ficar confinados a instalações de detenção apropriadas ou à propriedade do dono (desde que não haja risco para o dono ou para outras pessoas), podem ficar em observação diária para detecção de sintomas da raiva, como descrito aqui. Os animais que apresentem sintomas compatíveis com a raiva e os contactantes de alto risco (ou seja, animais expostos a mordeduras ou arranhaduras de animais com raiva) devem ser submetidos de imediato a eutanásia, utilizando técnicas humanas, disponíveis aqui. Se os cães suspeitos não puderem ser colocados em quarentena e observados diariamente também devem ser submetidos de imediato a eutanásia. Os cães que não apresentem sintomas devem ser vacinados antes de serem libertados e devolvidos aos donos. Os indivíduos expostos à raiva devem receber de imediato os primeiros socorros e procurar assistência médica (ver medidas de controle).

- A colheita de tecido cerebral de animais suspeitos (mortos ou submetidos a eutanásia) e a sua entrega rápida em laboratórios de referência para análises de confirmação. Consulte mais informações sobre os materiais necessários para a colheita de amostras a campo, as técnicas de colheita de amostras e os requisitos mínimos necessários para os laboratórios, que realizam o diagnóstico básico da raiva, como os materiais necessários e os protocolos. A determinação das características genéticas do vírus fornecerá informações adicionais sobre a possível origem do surto. Se as infraestruturas locais não forem adequadas, existem laboratórios de referência internacionais, citados aqui, que podem prestar apoio nas análises moleculares.

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Fotografia gentilmente cedida pelo «Serengeti Carnivore Disease Project»

- A definição precisa dos procedimentos de declaração e notificação (incluindo a comunicação dos resultados laboratoriais às autoridades locais) e a possibilidade de criar um sistema de chamadas de emergência, disponível 24 horas por dia.

Medidas de controle e prevenção

As medidas para limitar a propagação da doença e assegurar a proteção das pessoas devem incluir:

- A declaração das zonas e/ou dos locais infectados com a indicação precisa da sua delimitação. Convém colocar sinais de aviso em todas as estradas nos limites de zonas infectadas, bem como nos utros pontos de acesso, como as estações de trêm, portos, marinas e aeroportos.

- O controle da movimentação dos cães de entrada e saída de zonas ou locais infectados de forma a reduzir as oportunidades de contato entre animais potencialmente infectados e animais vulneráveis. Este objetivo pode ser concretizado, incentivando os donos a confinar os cães e monitorando a movimentação dos cães em pontos designados, conforme descrito aqui. É necessário impor regulamentação estrita contra a importação (por via marítima ou aérea) de animais sem um historico de vacinação conhecido, em particular de zonas onde se sabe que existem casos de raiva.

- O meio mais eficaz de reduzir o número de animais vulneráveis à doença numa zona infectada é a vacinação generalizada de cães (e gatos). Para saber por que é aconselhável incluir os gatos nas campanhas de vacinação, clicar aqui.

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Fotografia gentilmente cedida pelo «Serengeti Carnivore Disease Project»

Os programas de vacinação devem ser o ponto principal da resposta operacional, devendo ser consideradas as seguintes recomendações:

  • Possuir os recursos necessários e proporcionar formação adequada ao pessoal que trabalha a campo (ver recursos e pessoal necessário).
  • Assegurar o aprovisionamento de todos os materiais e equipamento necessários. Para consultar a lista do material que é necessário adquirir, clicar aqui. Convém utilizar vacinas de cultura de tecidos que sejam eficazes e com um período longo de imunização. Se o número de vacinas for limitado, deve concentrar-se nas zonas de maior necessidade, iniciando a vacinação na zona do surto e na circundante.
  • • Assegurar a cobertura suficiente (pelo menos 70 % da população canina) da vacinação, que deve ser conseguida rapidamente e mantida, por exemplo, através da vacinação anual obrigatória. A estratégia mais rentável para atingir um número suficientemente elevado de cães num período de tempo relativamente curto é a estratégia de posto central, sendo, por conseguinte, o método habitualmente selecionado. A utilização de estratégias mais onerosas, como a estratégia de vacinação porta-a-porta, deve limitar-se a cães muito difíceis de manipular, que não podem ser levados aos postos de vacinação. No entanto, esta abordagem pode ser necessária quando a doença entra numa zona nova, já que os donos dos cães podem inicialmente não se aperceber da importância da vacinação. Para saber mais sobre os métodos e os protocolos da vacinação canina, clicar aqui.
  • No momento da vacinação, devem ser colocadas marcas temporárias nos cães (para ver alguns exemplos, clicar aqui ) para que a percentagem de cães vacinados possa ser determinada pouco tempo depois da vacinação, através de técnicas simples descritas aqui).
  • É extremamente importante, numa situação de surto, facultar aos donos dos cães um certificado de vacinação, para que a situação dos animais em termos de vacinação possa ser determinada rapidamente e para manter os seus contatos que podem ficar registrados num registro central ou numa base de dados.
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Fotografia gentilmente cedida pelo «Serengeti Carnivore Disease Project»

- Captura e detenção dos animais. Se não existirem canis de detenção disponíveis localmente, devem ser instalados centros de detenção provisórios para cães suspeitos dentro da zona infectada. Para obter informações sobre a gestão de abrigos adequados para instalações de detenção provisória, clicar aqui.

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- Não se concentre na gestão da população canina no âmbito da resposta operacional. Caso seja necessário, podem ser implementados programas de gestão da população (descritos aqui ), quando o surto estiver controlado.

- Não se recomendam campanhas de eliminação indiscriminada de cães soltos. São ineficazes, impopulares e podem aumentar o risco de propagação da doença, uma vez que os donos podem ser incentivados a levarem os cães das zonas infectadas para zonas não infectadas, onde não se procede o abate. Este tipo de campanhas só contribui para desperdiçar tempo e desviar recursos do programa de vacinação dos cães, que constitui o meio mais eficaz de tratar o surto. O abate deve ser limitado aos cães com suspeita de raiva e aos cães não vacinados que tenham estado em contato com eles (ou seja, mordidos por um cão com suspeita de raiva) de acordo com as orientações, publicadas aqui e aqui. Para obter mais informações sobre o abate dos cães, clicar aqui.

- Assegure o fornecimento dos materiais e dos artigos médicos a tempo, principalmente dos produtos biológicos para uso humano (enumerados aqui ) e aplique a vacinação profilática a tempo (PreP [5] e PPE [6]) de:

  • Todo o pessoal com a possibilidade de entrar em contato com animais eventualmente infectados (por exemplo, o pessoal que captura os animais, os veterinários e/ou os vacinadores implicados no programa de controle da raiva a campo).
  • Todos os indivíduos expostos, como os contactantes com um caso suspeito ou confirmado de raiva humana ou animal, os contatos íntimos com pacientes com suspeita ou confirmação de raiva e outros contactantes, que possam ter estado em contato direto com os fluidos de um paciente depois da manifestação de sintomas. São prestadas aqui informações sobre a profilaxia humana da raiva.

- Promova iniciativas de comunicação importantes para aconselhar e sensibilizar através dos canais estabelecidos. Este procedimento reveste-se de especial importância em zonas indenes de raiva durante longos períodos de tempo. As campanhas de sensibilização devem:

  1. Informar as comunidades afetadas sobre as implicações de um surto de raiva para a saúde humana;
  2. Fornecer orientações sobre a prevenção das mordeduras de cães e sobre o seu tratamento no caso de animais suspeitos de raiva (como lavar as feridas e procurar tratamento médico imediato);
  3. Divulgar informações sobre a situação do surto, as localidades diretamente afetadas, as medidas de controle e as restrições implementadas, incluindo os requisitos a cumprir, por exemplo, a vacinação obrigatória e o confinamento dos cães;
  4. Solicitar a participação dos donos dos cães na campanha, para levarem os cães aos postos de vacinação ou apoiar os tratadores de cães durante a vacinação porta-a-porta (por exemplo, assegurando que os cães estejam acessíveis ou ajudando os tratadores e/ou os vacinadores);
  5. Prestar informações sobre a localização das instalações de detenção dos cães;
  6. Dar os números dos telefones de contato de urgência para declarar casos ou para obter respostas para as perguntas dos questionários.

Esta informação pode ser divulgada através de:

  • Os meios de comunicação social, incluindo a rádio, a televisão e os jornais, locais e nacionais. Para estabelecer mecanismos sistemáticos para informar e instruir os meios de comunicação e para divulgar informações precisas ao público, os porta-vozes dos gabinetes nacionais de imprensa devem ser a principal fonte de informação para os meios de comunicação e/ou para o público. Os comunicados de imprensa devem também ser considerados a nível nacional e local.
  • Pessoal veterinário e médico que deve estar preparado para aconselhar as pessoas que declaram casos de animais suspeitos e/ou de exposições.
  • Documentos de orientação, impressos ou audiovisuais, e cartas. Devem ser distribuídos folhetos sobre a raiva a todos os agregados familiares na zona infectada e devem ser afixados cartazes em painéis informativos acessíveis ao público.
  • Publicidade adequada das campanhas de vacinação. Para retirar algumas ideias, clicar aqui.
  • Sites da Web estatais.

WSPA = World Society for the Protection of Animals

[1] Organização Mundial de Saúde

[2] Organização Mundia de Saúde Animal

[3] Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura

[4] Unão Europeia

[5] Profilaxia pré-exposição

[6] Profilaxia pós-exposição




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Segunda versão; última atualização em julho de 2013